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  • Mostra de Cinema Negro São Félix

Materializar sonhos subjetivos

por: Luan Santos


Um lençol gasto pelo tempo e pelos corpos é esticado aos ventos enquanto recorta o Rio Paraguaçu atrás de si. Uma mulher negra (Desiane Barbosa) em um vestido vermelho intenso segura lençóis brancos levemente estampados em suas mãos, atrás de si a ponte que liga a cidade de São Félix e Cachoeira invoca signos de conexão. Estabelecendo a poética visual, signos e o território como potencialidade narrativa, “O sonho puído” (2019) de Desiane Barbosa transborda beleza em cada plano, cada frase e cada gesto que é costurado no balançar dos tecidos pelo vento, da conexão entre mulheres negras e a materialização de sonhos gastos que se renovam imersos nas águas e esticados ao sol.


O trabalho doméstico de lavar e cuidar das roupas historicamente foi exercido por mulheres negras, seja no regime da escravidão em que as mulheres negras eram forçadas a cuidar da casa e das roupas das famílias brancas escravocratas, ou no “pós abolição” em que essas mulheres garantiam o sustento de suas famílias lavando e secando roupas — e cuidando da casa — de famílias brancas por uma remuneração insignificante e condições precárias. As bacias abarrotadas de roupas eram carregadas até os rios e lagos para serem lavadas em atividades conjuntas de mulheres negras que tinham a prática de cantar cantigas e sambas como um gesto de alívio poético. Em “O sonho puído”, o gesto de cuidado com os lençóis e tecidos se reconfigura como uma performance de liberdade, de estender os sonhos ao sol e declamar poesias que lavam as angústias e os medos. Desiane estende lençóis no varal esticado nas margens do Rio Paraguaçu que reflete as luzes do sol no fim de tarde, enquanto o balançar do corpo e dos tecidos pelos ventos articula uma performance poética que reverbera em sensações de leveza terna. Segurando o varal, Desiane se coloca também a curar ao sol quando costura uma ponte de tecidos que se estende pelas margens do rio. Esses tecidos são a tela em que Deisiane e as mulheres negras do coletivo Marias da Ladeira vão materializar seus sonhos íntimos, rabiscar anseios e renovar a vida na leveza dos fios.


Costurando o vídeo-poesia e a performance na efervescência dos encontros, dos afetos e em rituais de cura coletiva, a narrativa tece os planos com cores vibrantes e movimentos que transmitem a leveza dos tecidos e dos corpos que pulsam em felicidades e sorrisos. A fotografia possui irregularidades na continuidade de cores e tons, com planos em que as diferenças saltam aos olhos, mas não desarranja a fruição poética que a narrativa constrói. Ao falar da experiência de escrita coletiva na corporificação dos desejos, uma das integrantes do coletivo destaca a importância do processo de estar compartilhando com outras mulheres negras em rituais de cura enquanto a câmera capta essas mulheres com os lençóis estendidos voando ao vento em suas costas, como capas que possibilitam os vôos e os saltos. Segurando os lençóis e esticando-os lado a lado, forma-se uma ponte de tecidos que sobrepõe a ponte de ferro atrás de si, corporificando a conexão singela entre essas mulheres. Os tecidos grafados pelos sonhos são fonte dos desejos onde o individual se torna (também) coletivo.




O poema expandido em imagens e sons em movimento surge como uma dedicatória às mulheres abraçadas pelo Mar da Ilha de Tereza, assim o mar e as águas dos rios são elementos cruciais para renovar os sonhos puídos. Deisiane percorre as ruas de paralelepípedos de Cachoeira e sua arquitetura histórica ainda marcada pelas estruturas coloniais segurando os lençóis amarrados uns aos outros enquanto declama nomes de “Terezas”, como se fizesse ressoar a importância desses nomes e das mulheres nomeadas como enfrentamento às estruturas de violência e apagamentos. A coletividade é abraçada como cura, o partilhar que possibilita a renovação de existências. Deisiane carrega os tecidos colados ao corpo, entrelaçado nas mãos para os lavar nas águas do Paraguaçu, deixar que os sonhos mergulhem e retornem novos. O espaço sonoro é embebido pelos sons da natureza — sons do caminhar dos rios, sons de mar e ventos — reforçando a conexão da poesia imagética com os territórios do Recôncavo e a natureza como força espiritual que rege corpos negros e possibilita as curas. A música potencializa a leveza das imagens e o contato com as culturas da Bahia — o som do berimbau que rege a lavagem das roupas no rio.


Para quarar os sonhos ao sal, Desiane lava os lençóis no mar em um dia de céu azul e sol dourado que faz sentir o aconchego, o esquentar do sol na pele e a renovação pelas águas salgadas. Materializando os sonhos em sons para jogá-los no mundo, fazê-los se propagar feito ondas no mar, Deisiane declama as frases escritas nos tecidos para completar o ritual de cura, retirar a poeira dos desejos e reverberá-los nas telas. Ao pronunciar os escritos, nós, espectadores, também compartilhamos dos sonhos subjetivos dessas mulheres e a esperança de que sejam realizados.


“O sonho puído” tece poesias em performances corporais e rituais de cura para renovar os sonhos desgastados de mulheres negras que foram constantemente impedidas de sonhar, onde o partilhar dos desejos criam pontes de afetos e cuidados que pulsam suas existências. O cinema como ritual de cura coletiva, um espaço onde os sonhos são compartilhados com intimidade e ressoam como coletividades.



As críticas são uma parceira da Mostra de Cinema Negro de São Félix e Viu&Review


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